Casa Cândia: prédio histórico guarda mais de um século de memória em Anastácio
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Na margem esquerda do Rio Aquidauana, em Anastácio, um prédio chama a atenção não apenas pela arquitetura, mas também pela história que carrega. A Casa Cândia é considerada um dos mais antigos estabelecimentos comerciais da região e um importante remanescente do período em que o território ainda fazia parte do antigo Estado de Mato Grosso.
A história da Casa Cândia está diretamente ligada ao processo de formação de Anastácio e ao desenvolvimento das atividades comerciais às margens do Rio Aquidauana. Pesquisas históricas apontam que o estabelecimento foi fundado por imigrantes italianos inicialmente em Nioaque, em 1905. Três anos depois, em 1908, uma filial foi instalada na margem esquerda do Rio Aquidauana, justamente na região onde hoje está o município de Anastácio.
Naquele período, os rios tinham papel fundamental na circulação de pessoas e mercadorias pelo sul do antigo Mato Grosso. Antes da expansão das rodovias e da chegada da ferrovia, o Rio Aquidauana funcionava como uma das principais vias de transporte e abastecimento da região.
Foi nesse cenário que a Casa Cândia ganhou importância. O estabelecimento funcionava como uma tradicional casa comercial, reunindo diferentes tipos de mercadorias e atendendo comerciantes, fazendeiros e moradores de diversas localidades.
Documentos históricos indicam que a movimentação comercial da Casa Cândia alcançava cidades como Campo Grande, Bela Vista, Maracaju, Nioaque e Corumbá, demonstrando que o estabelecimento fazia parte de uma rede comercial que ultrapassava os limites da então povoação de Aquidauana.
A Casa Cândia também teria desempenhado funções que iam além de um simples armazém. Registros históricos apontam que o estabelecimento chegou a atuar como uma espécie de banco para grandes fazendeiros da região, que guardavam seus rendimentos no local e realizavam suas compras no comércio.
José Cândia aparece nas referências históricas como um dos personagens ligados à origem do estabelecimento. A tradição histórica de Anastácio também registra a presença da família Cândia e de outros comerciantes que ajudaram a formar a antiga comunidade da margem esquerda do Rio Aquidauana.
Uma arquitetura que atravessou gerações
Além da importância econômica, a construção da Casa Cândia possui características arquitetônicas que ajudam a contar como os prédios comerciais eram erguidos naquela época.
A fachada chama atenção pelo nível de ornamentação e pela aparência preservada de diferentes períodos da história. A edificação utiliza blocos de arenito assentados com uma argamassa rudimentar à base de barro, uma técnica construtiva que revela os recursos disponíveis na região durante os primeiros anos de ocupação e desenvolvimento urbano.
Para pesquisadores, a construção não deve ser observada apenas como um antigo comércio. O prédio e os objetos preservados em seu interior ajudam a compreender os hábitos comerciais, econômicos e sociais de uma época em que a circulação de mercadorias dependia fortemente dos rios e das relações entre fazendeiros, comerciantes e comunidades.
A própria permanência de móveis, documentos e elementos antigos transforma o espaço em uma espécie de testemunho material da história regional. Estudos sobre a Casa Cândia destacam justamente a importância desses elementos para compreender as relações socioeconômicas existentes no início do século XX.
Casa Cândia e o nascimento de Anastácio
A história do estabelecimento se confunde com a própria história de Anastácio.
A ocupação da região ganhou força a partir do final do século XIX, quando imigrantes e outros moradores passaram a se estabelecer às margens do Rio Aquidauana. Em 1892 foi fundado o povoado de Aquidauana, e a margem esquerda do rio passou a concentrar casas, atividades comerciais e outros pontos importantes para a população.
Com a chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, o desenvolvimento urbano se fortaleceu na margem direita, onde cresceu Aquidauana. Na margem esquerda, entretanto, permaneceu um núcleo de ocupação que posteriormente daria origem ao município de Anastácio.
Anastácio foi criado como distrito de Aquidauana em 1958 e conquistou sua emancipação político-administrativa na década seguinte. O município foi oficialmente criado em 18 de março de 1964, com o desmembramento definitivo ocorrendo em 1965.
E a Casa Cândia estava presente muito antes de Anastácio existir como município.
Um patrimônio vivo
Ao longo das décadas, o estabelecimento passou por mudanças de razão social e administração, mas manteve o nome Casa Cândia, preservando parte de sua identidade histórica. Pesquisas registram que a família Trindade também passou a ter ligação com o comércio, mantendo a tradição do estabelecimento ao longo das gerações.
A edificação é apontada em estudos como parte do conjunto histórico do antigo Porto Geral de Anastácio. O trabalho acadêmico de Carlos Martins Junior destaca que a Casa Cândia foi arrolada pela representação regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), juntamente com outros edifícios do chamado Casario do Porto Geral de Anastácio.
Mais do que uma construção antiga, a Casa Cândia representa um período em que o comércio era fundamental para a sobrevivência e o crescimento das pequenas comunidades do interior. Suas paredes, sua fachada e os objetos preservados no local ajudam a reconstruir uma época em que o Rio Aquidauana era uma importante rota de transporte e em que as casas comerciais funcionavam como pontos de encontro, abastecimento e circulação de informações.
Hoje, ao passar pela região histórica de Anastácio, a Casa Cândia permite olhar para o passado e entender parte da trajetória que levou à formação do município.
É uma história que começou no comércio, atravessou gerações e permanece como uma das marcas mais importantes da memória de Anastácio e da região de Aquidauana.
Por: Redação