Quando a voz do Pantanal mudou: a história da Rádio Difusora de Aquidauana
Houve um tempo em que, para saber o que estava acontecendo em Aquidauana, bastava ligar o rádio.
Antes dos celulares, da internet, das redes sociais e das mensagens instantâneas, existia uma voz que atravessava a cidade, chegava às fazendas e fazia parte da rotina de milhares de famílias. Era a voz da Rádio Difusora de Aquidauana.
Inaugurada em 16 de março de 1952 por Elídio Telles de Oliveira, a emissora foi a primeira rádio em ondas médias do Portal do Pantanal. Na frequência de 1.340 kHz, a Difusora não era apenas uma empresa de comunicação. Durante muitos anos, ela foi praticamente uma ponte entre Aquidauana e um mundo que ainda não tinha a velocidade dos dias atuais.
Naquela época, muitas fazendas da região não contavam com telefone, as estradas eram difíceis e a energia elétrica ainda não fazia parte da realidade de diversos lugares. Era o rádio que levava notícias, informações e, principalmente, mensagens.
O rádio tinha uma função que hoje pode parecer simples, mas que naquela época era essencial.
Famílias enviavam recados. Notícias eram transmitidas. Havia avisos sobre comitivas de gado, chamadas médicas, comunicados de utilidade pública e informações que precisavam chegar rapidamente a pessoas que estavam distantes da cidade.
O velho rádio de pilha fazia parte da vida nas fazendas.
Era comum encontrar uma família reunida ouvindo a Difusora. Para muita gente, aquela voz que saía do aparelho era a principal ligação com Aquidauana e com o restante do mundo.
A emissora acabou se tornando muito mais do que uma estação de rádio.
Ela se tornou parte da memória de uma geração.
E o tempo passou Mas o mundo não parou.
Vieram novas tecnologias, novos meios de comunicação e novas formas de consumir informação. O telefone ficou popular, depois vieram a televisão, a internet, os celulares, os aplicativos de mensagens e as redes sociais.
Aquilo que levava minutos ou até horas para chegar pelo rádio passou a chegar em segundos.
E, como aconteceu com tantos outros negócios e profissões, o rádio também precisou mudar.
Em novembro de 2019, a tradicional Rádio Difusora AM 1340 deixou de transmitir na antiga frequência e passou pelo processo de migração das rádios AM para FM, adotando uma nova identidade: Rádio Avenida FM, na frequência 91,7 MHz.
A tecnologia trouxe melhor qualidade de áudio, novos equipamentos e uma maneira diferente de chegar ao ouvinte.
Mas existe algo que nenhuma tecnologia consegue substituir completamente: a memória.
Porque, embora a frequência tenha mudado e o nome tenha sido alterado, a história da antiga Difusora continuou guardada na lembrança de quem cresceu ouvindo aquela voz.
E talvez uma das partes mais bonitas dessa história esteja justamente nas pessoas que passaram pelos corredores da antiga emissora.
Francis Leone, hoje proprietário do Jornal A Princesinha News, também fez parte dessa trajetória.
Quando ainda era jovem, Francis trabalhou na antiga Rádio Difusora de Aquidauana.
Para aquele menino, a rádio não era apenas um local de trabalho. Era uma inspiração.
Estar próximo de uma emissora que fazia parte da história da cidade e acompanhar de perto profissionais trabalhando com comunicação ajudou a alimentar, ainda naquela época, o interesse que posteriormente continuaria presente em sua vida.
Décadas depois, Francis estaria à frente de outro veículo de comunicação, o Jornal A Princesinha News, vivendo uma nova fase da mesma história: a comunicação que continua existindo, mas agora em uma época completamente diferente.
É quase como se a voz tivesse mudado de lugar, mas a vontade de comunicar tivesse permanecido.
A antiga Rádio Difusora também deixou uma lembrança física em Aquidauana.
A emissora funcionava na Rua Marechal Deodoro, no bairro da Serraria, nas proximidades do atual Hospital Regional de Aquidauana Doutor Eustácio Muniz.
Para quem viveu aquela época, aquele endereço não era apenas mais um ponto da cidade.
Era o lugar de onde saía uma voz que chegava muito mais longe do que as paredes da emissora.
Hoje, quando se olha para trás, existe uma certa tristeza em perceber que algumas dessas coisas não existem mais da mesma forma.
Não é necessariamente tristeza pela tecnologia. A tecnologia trouxe avanços enormes.
A tristeza vem da percepção de que uma parte da vida ficou para trás.
A história da Rádio Difusora ensina uma coisa que vai muito além da comunicação.
O mundo muda. Comércios mudam. Profissões mudam. Empresas mudam. As formas de trabalhar mudam. Até aquilo que parece impossível de substituir um dia pode precisar se transformar.
A Difusora foi gigante em seu tempo porque soube ocupar um espaço que praticamente ninguém mais ocupava.
Depois, o mundo criou novas necessidades. E foi necessário mudar.
Essa é uma lição que serve para qualquer pessoa.
Não podemos viver esperando que o mundo permaneça exatamente como era quando começamos.
Quem trabalha precisa aprender novas ferramentas. Quem possui uma empresa precisa entender novos comportamentos. Quem está começando uma profissão precisa olhar para o futuro. E quem deseja permanecer relevante precisa compreender que conhecimento também precisa se renovar.
O passado merece respeito. Mas não podemos morar nele.
A antiga Difusora ficou para trás, mas sua história continua ensinando.
Hoje existe a Avenida FM. Existem celulares, internet, redes sociais, aplicativos e inúmeras outras formas de comunicação.
E amanhã, provavelmente, outras tecnologias surgirão.
Talvez alguém daqui a algumas décadas olhe para o nosso presente com a mesma nostalgia com que hoje olhamos para aquele velho rádio de pilha.
Por isso, talvez a maior lição deixada pela história da Difusora seja justamente esta:
o mundo evolui, gostemos ou não. Algumas coisas ficam para trás, outras se transformam e novas surgem. Cabe a nós aprender, acompanhar e evoluir também — para não descobrir um dia que o mundo seguiu em frente enquanto permanecemos parados no tempo.
E, mesmo quando uma frequência deixa de transmitir, uma voz pode continuar ecoando.
Na memória de uma cidade. Na história de uma família.
E no coração de quem um dia teve a oportunidade de ouvir.
Por: Redação


