Homem perde emprego de 8 anos e acumula R$ 2,4 milhões em apostas de Bet em MS
Um homem de 30 anos, natural de Três Lagoas, perdeu o emprego após oito anos trabalhando em uma empresa de Campo Grande, depois que o vício em apostas on-line passou a comprometer sua rotina profissional. O caso, que agora está na Justiça, envolve uma disputa contra a Blaze, plataforma na qual o apostador afirma ter movimentado cerca de R$ 2,4 milhões ao longo de três anos.
Morador do bairro Coophavila 2, na Capital, o homem teria conhecido as apostas on-line em 2023, influenciado por um colega de trabalho que administrava um grupo voltado a estratégias de jogos.
No início, os ganhos ocasionais fizeram com que a atividade parecesse uma oportunidade de obter dinheiro. Porém, segundo os relatos apresentados no processo, o comportamento se transformou progressivamente em dependência.
Em 2024, o quadro teria se agravado de maneira significativa. O apostador passou a dedicar aproximadamente seis horas por dia às plataformas, comprometendo o período de descanso e também o trabalho.
Ele chegou a acessar a plataforma de apostas durante o expediente, situação que, segundo o processo, contribuiu para a queda de produtividade e posteriormente para a perda do emprego que mantinha havia oito anos.
Somente em outubro de 2024, a conta bancária do homem registrou movimentações de R$ 71.360,02.
O processo descreve dois comportamentos associados ao agravamento da dependência: o chamado pass-through, quando valores entram e são rapidamente direcionados às plataformas, e o chasing, caracterizado pela tentativa de recuperar perdas anteriores por meio de novas apostas.
Ao longo dos três anos, o homem estima ter movimentado aproximadamente R$ 2,4 milhões em apostas.
Para continuar apostando, o três-lagoense teria recorrido a bancos, familiares e amigos, acumulando aproximadamente R$ 200 mil em dívidas.
Entre os recursos utilizados estava o chamado Pix no Crédito, modalidade que permite realizar transferências utilizando limite de crédito e que pode envolver juros elevados.
Além disso, o homem teria vendido o próprio veículo para conseguir dinheiro e continuar apostando.
Quando tentou interromper o comportamento por conta própria, relatou ter enfrentado irritabilidade e estresse intenso, sintomas descritos no processo como relacionados à interrupção das apostas.
Com a situação cada vez mais grave, ele contou sobre a dependência às pessoas próximas e recebeu orientação para bloquear as plataformas e deixar o controle das próprias finanças sob responsabilidade da esposa.
Em abril de 2026, o apostador recebeu diagnóstico de ludopatia, transtorno relacionado ao comportamento compulsivo de jogar.
O quadro apresentado no processo também aponta diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e relatos de ideação suicida diária, com indicação de risco elevado.
Diante da gravidade da situação, o caso passou a envolver também acompanhamento e tratamento da dependência.
Na ação judicial, o homem pede indenização contra a Foggo Entertainment Ltda., empresa responsável pela operação da Blaze no Brasil.
A defesa sustenta que a plataforma teria contribuído para a manutenção do comportamento compulsivo por meio de promoções, cashback, mensagens personalizadas e outros incentivos.
O advogado também afirma que a empresa teria deixado de intervir mesmo diante de sinais que, segundo a defesa, indicariam uma situação de vulnerabilidade, como o elevado volume de transações e o uso de crédito para realizar apostas.
A ação pede R$ 200 mil por danos materiais, relacionados às perdas financeiras que a defesa atribui ao período de compulsão, além de R$ 20 mil por danos morais, totalizando R$ 220 mil.
Até a última movimentação processual mencionada na reportagem, em agosto, o juiz havia solicitado documentos financeiros adicionais para analisar o pedido de gratuidade da Justiça. O caso individual ocorre em meio a outras ações envolvendo a plataforma.
Em junho deste ano, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) instaurou um inquérito civil para apurar possíveis irregularidades relacionadas à Blaze, incluindo questões envolvendo publicidade, bônus, bloqueio de contas e mecanismos de proteção ao jogador.
Em julho, o MPDFT também obteve decisão judicial que proibiu a Blaze e a influenciadora Virgínia Fonseca de veicular publicidade que apresentasse apostas como renda extra, investimento, alternativa ao emprego ou forma de recuperar perdas, além de restringir promessas de lucro garantido.
A ação coletiva do MPDFT ainda envolve um pedido de R$ 380 milhões em danos morais coletivos e outras medidas relacionadas à proteção de consumidores vulneráveis.
No caso do três-lagoense, entretanto, a responsabilidade da plataforma ainda será analisada pela Justiça. As alegações apresentadas contra a empresa fazem parte da ação judicial e não significam que já exista uma decisão definitiva obrigando a Blaze a ressarcir o apostador.
Por: Redação
